CAPÍTULO I
Tudo está normal.
Acordei esta manha às seis horas com meu celular tocando, um dos alarmes mais insuportáveis que se possa imaginar, afinal, todos os toques de despertador são insuportáveis. Quem quer levantar às seis horas da manhã pra ir trabalhar quando se pode dormir até mais tarde? Levanto e tento achar um chinelo naquele embaralhado de coisas espalhadas. Desisto, vou ao banheiro tomar um banho. Me seco, enrolo na toalha, tento achar uma camisa e uma calça entre as roupas emboladas no guarda-roupa. Acho uma camisa branca e uma calça jeans - ainda limpa - pego uma meia e calço um tênis. Em frente ao espelho, penteio o cabelo - um cabelo curto é bem mais fácil de cuidar, vou à cozinha e faço um lanche rápido: um sanduíche e um copo de leite. Sempre gostei das coisas práticas e fáceis.
Pego minha mochila e desço as escadas do prédio em que aluguei um quartinho, o prédio e antigo, a pinturas descascando, a escada apertada circular como um caracol, um lugar escondido a qual me refugiava. Pego na mochila um fone de ouvido e conecto ao celular, e lá estava eu na minha rotina de sempre, andando até o ponto de ônibus observando aquelas pessoas também carrancudas por ter que acordar cedo. Todos com suas rotinas, sem parar pra ver se o céu estava claro, ou nublado ou chuvoso. Apenas seguiam seu curso como máquinas e, eu assim, fazia. Mas, eu tinha um hobby, gostava de observar tudo, analisar e montar histórias ou imaginar coisas com tudo aquilo que via; minhas aventuras começavam quando saía de casa e colocava meu fone de ouvido, dali em diante começava a imaginar...
O que poderia ter naquela pasta? Sei que com certeza são currículos, documentos ou coisas assim, mas não me permito apenas aceitar o óbvio, quero algo que possa dar vida à minha imaginação. Então, percebo que não eram currículos, mas descrições de alguém, cujo homem de terno preto estava investigando. E lá estava um detetive particular encarregado de desvendar o mistério da família Nevelly. Aquele velho detetive estava ali disfarçado apenas para poder se aproximar do alvo com mais facilidade e certificar-se de que o homem que estava ao seu lado era realmente quem procurava. Este homem estava com uma vestimenta desleixada, tentando não se importar com o que havia à sua volta, mas ao mesmo tempo com medo de ser notado, o que deixava um ar de dúvida.
O ônibus chega ao meu ponto e sou obrigada a deixar para trás aqueles personagens, mas minha história continua a caminho da loja onde trabalho. Vou montando cada cena com meus personagens escolhidos:
Novamente, lá estava o detetive, sem saber que naquele momento ele seria pego de surpresa. O homem, em alerta, já percebera que estava sendo vigiado e resolve atacar seu seguidor. Pulando em seu pescoço, os dois homens caem, o homem tenta sufocar o detetive com as mãos, mas experiente, o detetive joga seu corpo para o lado desequilibrando seu oponente, o homem escapa. O detetive corre em seu encalço, consegue apanha-lo e o imobiliza. O suspeito se debate e gritar:
- Ela não era normal! Eles não são normais!
Em volta não havia ninguém. O detetive prende as mãos do homem, saca um revolver e o leva até uma rua sem saída. Estaria totalmente deserta se não fosse pelo gato meio arisco dentro da lixeira. Eles caminham até o carro, o detetive joga-o dentro do porta-malas e o tranca lá. Em seguida, liga o carro e parte para a área mais remota daquela cidade. O detetive já conhecia bem aquele lugar. Os becos sujos onde sempre levava suas vitimas para interrogatório. Ele sabia que os métodos que usava eram contra a lei, mas seu disfarce foi descoberto e ele precisava desvendar aquele caso. Afundado em dividas, precisava urgentemente de dinheiro, era perigoso extorquir a família Nevelly, mas era uma opção.
O detetive entrou em uma sala escura ao fim da viela. Era apenas um barraco com as paredes cobertas de jornal, tampando cada centímetro de luz que entrava naquele local. Um cheiro insuportável de esgoto pairava pela sala. Havia uma cadeira de ferro chumbada ao chão bem à sua frente onde o detetive amarrou seu prisioneiro e o amordaçou. Foi até o armário que se encontrava encostado no fundo da sala, tirou de dentro um alicate pequeno, chegou próximo a seu prisioneiro e segurou uma das mãos. O prisioneiro tentava se debater, mas o detetive era mais forte. O medo transparecia no rosto do homem, que suava frio. O detetive sabia que esse seria o momento ideal para tirar o que queria do suspeito. Começou a sussurrar:
- Você, provavelmente, já sabe por qual motivo está aqui e não irá sair daqui até me dizer tudo o que eu gostaria de saber. Se eu não gostar do que ouvir, irei arrancar unha por unha dos seus dedos. Quando eu tirar a mordaça de sua boca, não grite ou peça por socorro, ou não irei hesitar em cortar pedaços dos seus dedos. Para o seu bem, espero que me obedeça.
O detetive levantou-se, e tirou o pano que cobria a boca do prisioneiro. O suspeito não gritou, apena olhou aterrorizado.
- Então começa a desembuchar. O que você viu na noite em que a senhora Lucia morreu? Fala logo. - O detetive da um soco na cara do homem.
- Seu desgraçado! Acha que eu vou cair nessa? Eles não são normais. são monstros! Vou ser o próximo a morrer se falar alguma coisa. - Diz o homem.
Naquele momento o ônibus chegava ao meu destino e tive que parar os meus pensamentos por algum tempo. Descendo, fui direto para a entrada dos fundos da loja que fica em um beco frio e úmido. Como era de costume, caminhei para meu armário, sem muitos bons dias pelo caminho, peguei meu velho uniforme de sempre e segui para mais um dia de serviço monótono. Um cliente entra na loja e vou atendê-lo - não queria esta ali, mas este era meu quarto emprego em sete meses. Não podia ser mandada embora, estava cheia de contas para pagar. Meu aluguel estava atrasado já tinha três meses, o mestres dos magos - este era o nome que dei ao proprietário do quartinho em que alugava, ele já tinha me falado o seu nome quando aluguei o quarto, não lembro mais.- Me abordava todos os dias na escadaria pedindo os alugueis atrasados, eu sempre dava uma desculpa. O cliente me pergunta:
- Está me escutando? Eu quero um som potente. Você pode me mostrar, ou vai ficar viajando ai?
- Desculpe-me, senhor, temos estes dois ótimos modelos. Qual o senhor tem preferência?
O cliente já estava fazendo o pagamento e a menina do caixa estava anotando o endereço para poder fazer a entrega. Era uma promoção que a loja estava oferecendo, frete grátis, então até mesmo um pequeno rádio de pilha os clientes mandavam entregar.
A hora do almoço chegou e, como sempre, ia até a esquina onde havia um pequeno restaurante. Gostava muito daquele lugar, era aconchegante, mesas de madeira, uma toalhinha de renda em cada mesa, as paredes de um tom pastel, as janelas de vidros escuros onde você poderia olhar todos que passavam e ninguém te ver olhando, a comida era um pouco sem tempero, mas não me importava, era o lugar que me fazia bem.
Olhando a janela enquanto comia minha comida de sempre, espiava uma mulher do outro lado da rua. Ela com um ar imponente, mostrava ser uma pessoa arrogante, alguém que escondia muitos segredos, uma cara fechada, um olhar carrancudo, sua boca apertada com apenas um fio de lábios, vestia uma blusa social com pequenas flores, uma saia preta social - provavelmente uma empresaria a espera de um táxi. Logo a frente um ponto de ônibus com poucas pessoas, uma jovem provavelmente da minha idade, uns dezenove, vinte anos talvez, que vestia uma calça Jeans e uma blusa regata. Parecia um pouco ansiosa, provavelmente estava indo se encontrar com algum garoto - conhecia bem aquele nervosismo. Estava o tempo todo ajeitando a roupa e mexendo nos cabelos.
Sempre parei pra observar as pessoas e as vezes via alguns padrões que determinavam algumas coisas, acabei gravando alguns destes enquanto observava os alunos da minha antiga escola. Todos nós tínhamos um padrão para todos tipos de sentimentos não ditos: quando estávamos com raiva, triste, magoados, apaixonados, felizes. Sempre tentávamos esconder este sentimento na adolescência, precisávamos passar despercebidos e fingir que tudo é apenas um tédio, fingíamos estar amadurecendo.
Eu, no entanto parei por ali, e vivia completamente no tédio, sem expectativas. Alguns dos meus amigos depois de formados no ensino médio, entraram para faculdade. Quando encontro algum deles sempre me parecem animados e com ótimas expectativas de ser alguém com futuro promissor. Sempre que falo que não estou estudando em nenhuma faculdade, vejo aquele olhar de pena e superioridade. Não me importo, a minha vida continua seguindo em frente.
Havia também um senhor de idade, este me parecia bem diferente. Normalmente, a maioria das pessoas daquela idade sempre transparecem sabedoria ou vivencias, algumas sofridas outras felizes mas sempre com aquela expressão de certeza, como se estivesse descoberto que tudo o que ele tinha aprendido ou vivenciado não estivesse certo. Fiquei observando ele com mais cautela. Vestia uma calça caqui, uma camisa de botões na frente por dentro da calça, um sapato marrom lustroso. Seu rosto já mostrava os sinais da idade avançada, uma pinta ou talvez uma verruga próxima do queixo, seu olhar meio nevoado.
Neste momento aconteceu algo muito estranho: ele me encara e olha diretamente para meus olhos através do vidro do restaurante. Naquele momento me arrepio, mas foi muito rápido, quase uma fração de segundo. Nunca me senti daquela forma, era quase um aviso de alerta, então eu sabia que alguma coisa estava para acontecer...
Me sinto meio estranha com aquela sensação, mas logo esqueço.
De repente, me lembro da minha historia já começada, gosto de dar fim as minhas historias antes que o dia acabe, para no outro dia ter uma historia nova. Resolvo introduzir estes três personagens que havia observado, olho no relógio e vejo que ainda me falta mais uma hora de almoço, levanto e pago meu almoço, saio pela calçada voltando meus pensamentos - sempre é bom pensar andando -.
O detetive percebeu a expressão no rosto do rapaz quando ele tinha terminado aquela frase:
- Você vai morrer é se não falar nada.- disse ao rapaz.
O detetive se aproxima do homem a sua frente, via o quanto ele estava apreensivo, olhou naqueles olhos que dava a impressão que queria devorar alguma coisa. Mesmo mostrando algum receio e medo, seus olhos respondiam o contrario. Automaticamente, o detetive levanta o braço fecha a mão e da um murro tão forte no rosto daquele sujeito que sente a mandíbula deslocando, ele não consegue se segurar e toda a raiva que ele estava sentido, e acaba descarregando tudo em socos. Já estava atrás de algo, de qualquer coisa que pudesse descobrir da família Nevelly, ela destruiu sua vida, ele sabia que aquela família escondia um segredo, ele precisava descobrir.
O detetive não queria parar de esmurrar a cara daquele sujeito, mas então ele parou. Ele tinha que parar se não ele iria matá-lo, ele não se importava. Ele se afastou e reparou o rosto do homem, o nariz estava meio torto - sabia que o tinha quebrado - sua boca estava entreaberta, o nariz escorria sangue e, provavelmente daqui algumas horas, seu rosto iria mostrar todos os hematomas das pancadas. O rapaz estava desmaiado com a cabeça inclinada para o lado meio que tombada no ombro, foi ate o outro lado da sala, pegou uma vasilha em cima da pia, encheu de água, encaminhou até o homem e jogou toda a água na cara dele. O sujeito despertou meio assustado e meio sufocado, tossiu um pouco e olhou em volta procurando o detetive, logo em seguida começou a gritar. O detetive percebeu que não tinha quebrado a mandíbula dele e ficou um pouco decepcionado, mas achou melhor assim. Foi até o armário, pegou um cigarro e o acendeu. O rapaz começou a gritar mais alto, provavelmente com medo que o machucasse mais.
- Não adianta gritar. Você não acha mesmo que iria te trazer a um lugar a onde você poderia pedir por socorro, não é? Aqui você não existe.
Neste momento, eu estava sentada na escadinha próxima à entrada do meu serviço, faltavam quinze minutos para entrar e uma menina que trabalhava comigo como vendedora tinha acabado de me tirar dos meus pensamentos.
- Você está me escutando?
- Desculpa, estava pensando. Não reparei você chegando.
- Você vive no mundo da lua.
- Prefiro assim, mas o que você quer?- pergunto, irritada. Não gostava de ser interrompida.
- O Fabrício chamou o pessoal para ir depois do serviço comemorar o aniversario dele e me pediu para te chamar. - Ela falou sem interesse nenhum que eu fosse, apenas queria que eu respondesse que não estava afim.- Só estou dando o recado, se não quiser ir tudo bem.
- Não, não estou interessada.- Respondi o que ela queria ouvir, assim, quem sabe, ela me deixaria continuar a pensar. Ainda daria tempo de colocar algumas coisas antes de voltar ao trabalho. - Ela me olhou espantada.
- Você é muito estranha.- Ela diz, entrando no beco e indo para a loja.
Eu a olho entrar e simplesmente paro pra pensar no que ela disse. Sim, talvez eu seja estranha, talvez eu prefira ficar horas deitada olhando para o teto do meu quarto do que estar entre pessoas, interagindo e bebendo. As pessoas precisam de pessoas que se encaixem em seus padrões. É necessário estar no meio de pessoas que gostem das mesmas coisas que você. Eu vejo que não me encaixo em nenhum grupo e na verdade não quero me encaixar, quero ficar aqui comigo mesma e meus fantasmas criados por mim. Antes de formular tudo isto, um homem de cabelos pretos e olhos igualmente pretos, com mais ou menos um metro e oitenta, vestido com um uniforme de estoquista, sai do beco e vira ao meu encontro.
- Oi, a Jú acabou de me falar que você não irá na comemoração, então, pensei em vir eu mesmo te convidar.- Ele tenta dar seu melhor sorriso, mas eu simplesmente não me comovo. Eu não sou como todas as garotas, simplesmente não desejo a companhia de outro sexo ou ate mesmo do mesmo sexo, eu simplesmente queria ficar sozinha com meus pensamentos naquele momento.
- Eu não vou poder ir, não é nada contra, mas tenho muitas coisas pra fazer depois daqui, desculpa, e parabéns pelo seu dia.- Estendo a mão. Era comum ter que dar uma explicação sensata a alguém, se não eles podem ser um bicho perigoso. Ninguém aceita apenas um 'não tô a fim’ como algo comum, sempre irão achar que era por outro motivo, a não ser o significado exato da palavra e eu realmente não estava pra nenhum motivo formado.
- Obrigado, mas se mudar de ideia, apareça lá. - Ele sorri de novo, não muito satisfeito, mas parece ter aceitado minhas desculpas, então entra para a loja.
Olho no relógio e já tinha passado quatro minutos do meu horário, levanto e entro no beco, abrindo a porta para a loja em seguida.
Meu serviço foi tranquilo. Atendi alguns clientes e não estava me saindo muito mal neste serviço, mas sabia que não iria durar muito. Eu sempre acabava sendo repreendida pelos clientes quando me perdia nos pensamentos, mas ate então era interessante observar cada cliente. Meu horário de serviço chegou ao fim, então fui trocar de roupa e pegar minhas coisas no armário. Estava parada no ponto de ônibus, onde havia observado a Mulher Segredo, a Jovem excitada e o Senhor Mistério, sentei no banquinho de pedra e me perdi novamente nos meus pensamentos:
O detetive continuava seu interrogatório, mas sem sucesso algum, e cada vez mais intrigado com a expressão no rosto do rapaz que estava mergulhado em seus próprios pensamentos, amedrontado pelos acontecimentos passados. Com medo de ser novamente espancado pelo detetive, o rapaz já estava com o nariz quebrado e seu rosto mostrava os hematomas das pancadas que levou, duas marca de queimadura de cigarro nas bochechas, uma unha quase arrancada com o alicate e sentia dor nas bolas, por ter ganhado um bicudo. Ele parecia não estar aguentando mais e estava começando a aceitar sua morte. O detetive então tentou usar esta situação a seu favor.
- Você provavelmente irá morrer a qualquer momento, porém eu posso te dar um pouco mais de tempo nesta vida, seu miserável. Eu preciso apenas que você me diga o que sabe sobre a Família Nevelly, sem enrolação, é só me falar e eu não vou fazer mais nada com você. Ainda posso convencer o García a te proteger. -Ele tentou usar bem as palavras, mas realmente não iria fazer mais nada com o rapaz caso ele contasse alguma coisa útil, porém ele não poderia ajudar já que ele estava em divida com o García e precisava pagá-lo o mais rápido possível. O García era fácil de negociar, mas se ficasse devendo muito tempo, não era uma boa coisa. O detetive sabia que se aquele cara fosse pego pela família Nevelly, seria ainda pior do que dever o Garcia, tinha certeza que o Sr Nevelly não teria a menor pena daquele homem.
A família Nevelly era conhecida por ser uma família tradicional, considerada de boa índole pela sociedade, mas não, o detetive já sabia bem como aquela família agia. Depois que ela destruiu sua reputação e toda sua vida, ele queria vingança. Tinha visto o Sr Nevelly conversar com o García e sabia que ele não tinha pena de ninguém, os Nevelly eram frios e calculistas, até mesmo o próprio García havia demonstrado temor a eles. Na noite em que viu a conversa pela greta da porta, o detetive viu o Sr Nevelly com uma postura rígida, seus olhos demonstravam um vazio de qualquer sentimento. O único momento em que o afeto relampeou em seus olhos, foi quando García tentou entregar um pacote cheio de papeis para ele. O Sr. Nevelly estava acompanhado de uma mulher de cara fechada, um olhar carrancudo, sua boca apertada com apenas um fio de lábio, vestia uma blusa social com pequenas florzinhas e uma saia preta social. Ele pegou o pacote e o García falou:
- Posso te entregar o endereço dele e dizer os lugares que frequenta.
A mulher perguntou com uma voz rígida:
- Conseguiu chegar até ele? - Seus olhos o encararam penetrantemente o García, que manteve o olhar. O detetive olhou nos olhos daquela mulher e teve uma curiosidade sobre ela, havia segredos ali e talvez fosse por este motivo que teve vontade de saber mais sobre aquela família, quando ele olhou para o Sr Nevelly, o filho mais velho daquela mulher, os olhos dele estavam com uma intensidade, olhando sua mãe enquanto ela falava, parecia mais adoração do que um sentimento de respeito.
- Não tentei, mas está ai tudo que eu sei e meu pessoal sabe. - Falou o García.
- São todos incompetentes, terei que fazer eu mesma. - Falou a Sra. Nevelly.
Ela foi bem ríspida ao dizer isso e ali estava sendo encerrado o assunto. O detetive se afastou da porta e assim tentou retirar do García o que a família Nevelly estava querendo, depois de algumas bebida ele já sabia quem. E aqui estava ele, espancando aquele lixo para que confessasse o que sabia. O detetive já estava cansado da ladainha daquele cara, sempre há um louco querendo se justificar.
O rapaz olhou para o detetive e com um sorrisinho de quem não estava mais se importando com o que fosse acontecer e já não aguentava mais ser espancado, então começou a falar:
- Cara, eu realmente queria comer aquela vadiazinha. Sim estou falando da filha mais nova da Sra Nevelly, todo dia vinha toda assanhada pra cima de mim enquanto eu estava terminando meu serviço, ficava com aquele sorrisinho zombeteiro. Eu já estava acabando de juntar aqueles entulhos, não sei por que fiz isto, então resolvi dar uma espiada na casa. Não tinha visto nenhum movimento, achei que só a putinha estava lá, resolvi ir pegar meu pagamento e talvez até comer a desgraçada. Entrei pela cozinha e fui pra sala, no corredor tinha uma porta meio aberta com uma escada descendo para o porão, o lugar parecia um labirinto, ele tinha construído umas passagens abaixo da casa, escutei um barulho e resolvi dar uma olhadinha. Sabe, eu não ia fazer nada com ela, só estava curioso, quando eu desci, a vi de costas. Ela não tinha me escutado descer, eu só vi um matadouro no porão. Achei que eles abatiam os porcos ou algo parecido ali e fiquei meio confuso até ver que não eram porcos, mas na verdade eram corpos de crianças. Daí eu tentei sair o mais rápido possível daquele lugar e não deixar ninguém me ver, mas acho que foi tarde. A desgraçada da empregada me viu sair da casa correndo. Sabia que eles não me deixariam vivo, depois que soube da morte da Lucia, a empregada, então estava tentando arrumar um jeito de sair da cidade. Ate você vir me arrastar para esta merda de lugar, achei que você iria me matar, mas estou vendo que você não sabe de nada do que estas pessoas são capazes.
Pego minha mochila e desço as escadas do prédio em que aluguei um quartinho, o prédio e antigo, a pinturas descascando, a escada apertada circular como um caracol, um lugar escondido a qual me refugiava. Pego na mochila um fone de ouvido e conecto ao celular, e lá estava eu na minha rotina de sempre, andando até o ponto de ônibus observando aquelas pessoas também carrancudas por ter que acordar cedo. Todos com suas rotinas, sem parar pra ver se o céu estava claro, ou nublado ou chuvoso. Apenas seguiam seu curso como máquinas e, eu assim, fazia. Mas, eu tinha um hobby, gostava de observar tudo, analisar e montar histórias ou imaginar coisas com tudo aquilo que via; minhas aventuras começavam quando saía de casa e colocava meu fone de ouvido, dali em diante começava a imaginar...
O que poderia ter naquela pasta? Sei que com certeza são currículos, documentos ou coisas assim, mas não me permito apenas aceitar o óbvio, quero algo que possa dar vida à minha imaginação. Então, percebo que não eram currículos, mas descrições de alguém, cujo homem de terno preto estava investigando. E lá estava um detetive particular encarregado de desvendar o mistério da família Nevelly. Aquele velho detetive estava ali disfarçado apenas para poder se aproximar do alvo com mais facilidade e certificar-se de que o homem que estava ao seu lado era realmente quem procurava. Este homem estava com uma vestimenta desleixada, tentando não se importar com o que havia à sua volta, mas ao mesmo tempo com medo de ser notado, o que deixava um ar de dúvida.
O ônibus chega ao meu ponto e sou obrigada a deixar para trás aqueles personagens, mas minha história continua a caminho da loja onde trabalho. Vou montando cada cena com meus personagens escolhidos:
Novamente, lá estava o detetive, sem saber que naquele momento ele seria pego de surpresa. O homem, em alerta, já percebera que estava sendo vigiado e resolve atacar seu seguidor. Pulando em seu pescoço, os dois homens caem, o homem tenta sufocar o detetive com as mãos, mas experiente, o detetive joga seu corpo para o lado desequilibrando seu oponente, o homem escapa. O detetive corre em seu encalço, consegue apanha-lo e o imobiliza. O suspeito se debate e gritar:
- Ela não era normal! Eles não são normais!
Em volta não havia ninguém. O detetive prende as mãos do homem, saca um revolver e o leva até uma rua sem saída. Estaria totalmente deserta se não fosse pelo gato meio arisco dentro da lixeira. Eles caminham até o carro, o detetive joga-o dentro do porta-malas e o tranca lá. Em seguida, liga o carro e parte para a área mais remota daquela cidade. O detetive já conhecia bem aquele lugar. Os becos sujos onde sempre levava suas vitimas para interrogatório. Ele sabia que os métodos que usava eram contra a lei, mas seu disfarce foi descoberto e ele precisava desvendar aquele caso. Afundado em dividas, precisava urgentemente de dinheiro, era perigoso extorquir a família Nevelly, mas era uma opção.
O detetive entrou em uma sala escura ao fim da viela. Era apenas um barraco com as paredes cobertas de jornal, tampando cada centímetro de luz que entrava naquele local. Um cheiro insuportável de esgoto pairava pela sala. Havia uma cadeira de ferro chumbada ao chão bem à sua frente onde o detetive amarrou seu prisioneiro e o amordaçou. Foi até o armário que se encontrava encostado no fundo da sala, tirou de dentro um alicate pequeno, chegou próximo a seu prisioneiro e segurou uma das mãos. O prisioneiro tentava se debater, mas o detetive era mais forte. O medo transparecia no rosto do homem, que suava frio. O detetive sabia que esse seria o momento ideal para tirar o que queria do suspeito. Começou a sussurrar:
- Você, provavelmente, já sabe por qual motivo está aqui e não irá sair daqui até me dizer tudo o que eu gostaria de saber. Se eu não gostar do que ouvir, irei arrancar unha por unha dos seus dedos. Quando eu tirar a mordaça de sua boca, não grite ou peça por socorro, ou não irei hesitar em cortar pedaços dos seus dedos. Para o seu bem, espero que me obedeça.
O detetive levantou-se, e tirou o pano que cobria a boca do prisioneiro. O suspeito não gritou, apena olhou aterrorizado.
- Então começa a desembuchar. O que você viu na noite em que a senhora Lucia morreu? Fala logo. - O detetive da um soco na cara do homem.
- Seu desgraçado! Acha que eu vou cair nessa? Eles não são normais. são monstros! Vou ser o próximo a morrer se falar alguma coisa. - Diz o homem.
CAPÍTULO II
Como deve ser.
Naquele momento o ônibus chegava ao meu destino e tive que parar os meus pensamentos por algum tempo. Descendo, fui direto para a entrada dos fundos da loja que fica em um beco frio e úmido. Como era de costume, caminhei para meu armário, sem muitos bons dias pelo caminho, peguei meu velho uniforme de sempre e segui para mais um dia de serviço monótono. Um cliente entra na loja e vou atendê-lo - não queria esta ali, mas este era meu quarto emprego em sete meses. Não podia ser mandada embora, estava cheia de contas para pagar. Meu aluguel estava atrasado já tinha três meses, o mestres dos magos - este era o nome que dei ao proprietário do quartinho em que alugava, ele já tinha me falado o seu nome quando aluguei o quarto, não lembro mais.- Me abordava todos os dias na escadaria pedindo os alugueis atrasados, eu sempre dava uma desculpa. O cliente me pergunta:
- Está me escutando? Eu quero um som potente. Você pode me mostrar, ou vai ficar viajando ai?
- Desculpe-me, senhor, temos estes dois ótimos modelos. Qual o senhor tem preferência?
O cliente já estava fazendo o pagamento e a menina do caixa estava anotando o endereço para poder fazer a entrega. Era uma promoção que a loja estava oferecendo, frete grátis, então até mesmo um pequeno rádio de pilha os clientes mandavam entregar.
A hora do almoço chegou e, como sempre, ia até a esquina onde havia um pequeno restaurante. Gostava muito daquele lugar, era aconchegante, mesas de madeira, uma toalhinha de renda em cada mesa, as paredes de um tom pastel, as janelas de vidros escuros onde você poderia olhar todos que passavam e ninguém te ver olhando, a comida era um pouco sem tempero, mas não me importava, era o lugar que me fazia bem.
Olhando a janela enquanto comia minha comida de sempre, espiava uma mulher do outro lado da rua. Ela com um ar imponente, mostrava ser uma pessoa arrogante, alguém que escondia muitos segredos, uma cara fechada, um olhar carrancudo, sua boca apertada com apenas um fio de lábios, vestia uma blusa social com pequenas flores, uma saia preta social - provavelmente uma empresaria a espera de um táxi. Logo a frente um ponto de ônibus com poucas pessoas, uma jovem provavelmente da minha idade, uns dezenove, vinte anos talvez, que vestia uma calça Jeans e uma blusa regata. Parecia um pouco ansiosa, provavelmente estava indo se encontrar com algum garoto - conhecia bem aquele nervosismo. Estava o tempo todo ajeitando a roupa e mexendo nos cabelos.
Sempre parei pra observar as pessoas e as vezes via alguns padrões que determinavam algumas coisas, acabei gravando alguns destes enquanto observava os alunos da minha antiga escola. Todos nós tínhamos um padrão para todos tipos de sentimentos não ditos: quando estávamos com raiva, triste, magoados, apaixonados, felizes. Sempre tentávamos esconder este sentimento na adolescência, precisávamos passar despercebidos e fingir que tudo é apenas um tédio, fingíamos estar amadurecendo.
Eu, no entanto parei por ali, e vivia completamente no tédio, sem expectativas. Alguns dos meus amigos depois de formados no ensino médio, entraram para faculdade. Quando encontro algum deles sempre me parecem animados e com ótimas expectativas de ser alguém com futuro promissor. Sempre que falo que não estou estudando em nenhuma faculdade, vejo aquele olhar de pena e superioridade. Não me importo, a minha vida continua seguindo em frente.
Havia também um senhor de idade, este me parecia bem diferente. Normalmente, a maioria das pessoas daquela idade sempre transparecem sabedoria ou vivencias, algumas sofridas outras felizes mas sempre com aquela expressão de certeza, como se estivesse descoberto que tudo o que ele tinha aprendido ou vivenciado não estivesse certo. Fiquei observando ele com mais cautela. Vestia uma calça caqui, uma camisa de botões na frente por dentro da calça, um sapato marrom lustroso. Seu rosto já mostrava os sinais da idade avançada, uma pinta ou talvez uma verruga próxima do queixo, seu olhar meio nevoado.
Neste momento aconteceu algo muito estranho: ele me encara e olha diretamente para meus olhos através do vidro do restaurante. Naquele momento me arrepio, mas foi muito rápido, quase uma fração de segundo. Nunca me senti daquela forma, era quase um aviso de alerta, então eu sabia que alguma coisa estava para acontecer...
Me sinto meio estranha com aquela sensação, mas logo esqueço.
De repente, me lembro da minha historia já começada, gosto de dar fim as minhas historias antes que o dia acabe, para no outro dia ter uma historia nova. Resolvo introduzir estes três personagens que havia observado, olho no relógio e vejo que ainda me falta mais uma hora de almoço, levanto e pago meu almoço, saio pela calçada voltando meus pensamentos - sempre é bom pensar andando -.
O detetive percebeu a expressão no rosto do rapaz quando ele tinha terminado aquela frase:
- Você vai morrer é se não falar nada.- disse ao rapaz.
O detetive se aproxima do homem a sua frente, via o quanto ele estava apreensivo, olhou naqueles olhos que dava a impressão que queria devorar alguma coisa. Mesmo mostrando algum receio e medo, seus olhos respondiam o contrario. Automaticamente, o detetive levanta o braço fecha a mão e da um murro tão forte no rosto daquele sujeito que sente a mandíbula deslocando, ele não consegue se segurar e toda a raiva que ele estava sentido, e acaba descarregando tudo em socos. Já estava atrás de algo, de qualquer coisa que pudesse descobrir da família Nevelly, ela destruiu sua vida, ele sabia que aquela família escondia um segredo, ele precisava descobrir.
O detetive não queria parar de esmurrar a cara daquele sujeito, mas então ele parou. Ele tinha que parar se não ele iria matá-lo, ele não se importava. Ele se afastou e reparou o rosto do homem, o nariz estava meio torto - sabia que o tinha quebrado - sua boca estava entreaberta, o nariz escorria sangue e, provavelmente daqui algumas horas, seu rosto iria mostrar todos os hematomas das pancadas. O rapaz estava desmaiado com a cabeça inclinada para o lado meio que tombada no ombro, foi ate o outro lado da sala, pegou uma vasilha em cima da pia, encheu de água, encaminhou até o homem e jogou toda a água na cara dele. O sujeito despertou meio assustado e meio sufocado, tossiu um pouco e olhou em volta procurando o detetive, logo em seguida começou a gritar. O detetive percebeu que não tinha quebrado a mandíbula dele e ficou um pouco decepcionado, mas achou melhor assim. Foi até o armário, pegou um cigarro e o acendeu. O rapaz começou a gritar mais alto, provavelmente com medo que o machucasse mais.
- Não adianta gritar. Você não acha mesmo que iria te trazer a um lugar a onde você poderia pedir por socorro, não é? Aqui você não existe.
Neste momento, eu estava sentada na escadinha próxima à entrada do meu serviço, faltavam quinze minutos para entrar e uma menina que trabalhava comigo como vendedora tinha acabado de me tirar dos meus pensamentos.
- Você está me escutando?
- Desculpa, estava pensando. Não reparei você chegando.
- Você vive no mundo da lua.
- Prefiro assim, mas o que você quer?- pergunto, irritada. Não gostava de ser interrompida.
- O Fabrício chamou o pessoal para ir depois do serviço comemorar o aniversario dele e me pediu para te chamar. - Ela falou sem interesse nenhum que eu fosse, apenas queria que eu respondesse que não estava afim.- Só estou dando o recado, se não quiser ir tudo bem.
- Não, não estou interessada.- Respondi o que ela queria ouvir, assim, quem sabe, ela me deixaria continuar a pensar. Ainda daria tempo de colocar algumas coisas antes de voltar ao trabalho. - Ela me olhou espantada.
- Você é muito estranha.- Ela diz, entrando no beco e indo para a loja.
Eu a olho entrar e simplesmente paro pra pensar no que ela disse. Sim, talvez eu seja estranha, talvez eu prefira ficar horas deitada olhando para o teto do meu quarto do que estar entre pessoas, interagindo e bebendo. As pessoas precisam de pessoas que se encaixem em seus padrões. É necessário estar no meio de pessoas que gostem das mesmas coisas que você. Eu vejo que não me encaixo em nenhum grupo e na verdade não quero me encaixar, quero ficar aqui comigo mesma e meus fantasmas criados por mim. Antes de formular tudo isto, um homem de cabelos pretos e olhos igualmente pretos, com mais ou menos um metro e oitenta, vestido com um uniforme de estoquista, sai do beco e vira ao meu encontro.
- Oi, a Jú acabou de me falar que você não irá na comemoração, então, pensei em vir eu mesmo te convidar.- Ele tenta dar seu melhor sorriso, mas eu simplesmente não me comovo. Eu não sou como todas as garotas, simplesmente não desejo a companhia de outro sexo ou ate mesmo do mesmo sexo, eu simplesmente queria ficar sozinha com meus pensamentos naquele momento.
- Eu não vou poder ir, não é nada contra, mas tenho muitas coisas pra fazer depois daqui, desculpa, e parabéns pelo seu dia.- Estendo a mão. Era comum ter que dar uma explicação sensata a alguém, se não eles podem ser um bicho perigoso. Ninguém aceita apenas um 'não tô a fim’ como algo comum, sempre irão achar que era por outro motivo, a não ser o significado exato da palavra e eu realmente não estava pra nenhum motivo formado.
- Obrigado, mas se mudar de ideia, apareça lá. - Ele sorri de novo, não muito satisfeito, mas parece ter aceitado minhas desculpas, então entra para a loja.
Olho no relógio e já tinha passado quatro minutos do meu horário, levanto e entro no beco, abrindo a porta para a loja em seguida.
CAPÍTULO III
A duvida.
Meu serviço foi tranquilo. Atendi alguns clientes e não estava me saindo muito mal neste serviço, mas sabia que não iria durar muito. Eu sempre acabava sendo repreendida pelos clientes quando me perdia nos pensamentos, mas ate então era interessante observar cada cliente. Meu horário de serviço chegou ao fim, então fui trocar de roupa e pegar minhas coisas no armário. Estava parada no ponto de ônibus, onde havia observado a Mulher Segredo, a Jovem excitada e o Senhor Mistério, sentei no banquinho de pedra e me perdi novamente nos meus pensamentos:
O detetive continuava seu interrogatório, mas sem sucesso algum, e cada vez mais intrigado com a expressão no rosto do rapaz que estava mergulhado em seus próprios pensamentos, amedrontado pelos acontecimentos passados. Com medo de ser novamente espancado pelo detetive, o rapaz já estava com o nariz quebrado e seu rosto mostrava os hematomas das pancadas que levou, duas marca de queimadura de cigarro nas bochechas, uma unha quase arrancada com o alicate e sentia dor nas bolas, por ter ganhado um bicudo. Ele parecia não estar aguentando mais e estava começando a aceitar sua morte. O detetive então tentou usar esta situação a seu favor.
- Você provavelmente irá morrer a qualquer momento, porém eu posso te dar um pouco mais de tempo nesta vida, seu miserável. Eu preciso apenas que você me diga o que sabe sobre a Família Nevelly, sem enrolação, é só me falar e eu não vou fazer mais nada com você. Ainda posso convencer o García a te proteger. -Ele tentou usar bem as palavras, mas realmente não iria fazer mais nada com o rapaz caso ele contasse alguma coisa útil, porém ele não poderia ajudar já que ele estava em divida com o García e precisava pagá-lo o mais rápido possível. O García era fácil de negociar, mas se ficasse devendo muito tempo, não era uma boa coisa. O detetive sabia que se aquele cara fosse pego pela família Nevelly, seria ainda pior do que dever o Garcia, tinha certeza que o Sr Nevelly não teria a menor pena daquele homem.
A família Nevelly era conhecida por ser uma família tradicional, considerada de boa índole pela sociedade, mas não, o detetive já sabia bem como aquela família agia. Depois que ela destruiu sua reputação e toda sua vida, ele queria vingança. Tinha visto o Sr Nevelly conversar com o García e sabia que ele não tinha pena de ninguém, os Nevelly eram frios e calculistas, até mesmo o próprio García havia demonstrado temor a eles. Na noite em que viu a conversa pela greta da porta, o detetive viu o Sr Nevelly com uma postura rígida, seus olhos demonstravam um vazio de qualquer sentimento. O único momento em que o afeto relampeou em seus olhos, foi quando García tentou entregar um pacote cheio de papeis para ele. O Sr. Nevelly estava acompanhado de uma mulher de cara fechada, um olhar carrancudo, sua boca apertada com apenas um fio de lábio, vestia uma blusa social com pequenas florzinhas e uma saia preta social. Ele pegou o pacote e o García falou:
- Posso te entregar o endereço dele e dizer os lugares que frequenta.
A mulher perguntou com uma voz rígida:
- Conseguiu chegar até ele? - Seus olhos o encararam penetrantemente o García, que manteve o olhar. O detetive olhou nos olhos daquela mulher e teve uma curiosidade sobre ela, havia segredos ali e talvez fosse por este motivo que teve vontade de saber mais sobre aquela família, quando ele olhou para o Sr Nevelly, o filho mais velho daquela mulher, os olhos dele estavam com uma intensidade, olhando sua mãe enquanto ela falava, parecia mais adoração do que um sentimento de respeito.
- Não tentei, mas está ai tudo que eu sei e meu pessoal sabe. - Falou o García.
- São todos incompetentes, terei que fazer eu mesma. - Falou a Sra. Nevelly.
Ela foi bem ríspida ao dizer isso e ali estava sendo encerrado o assunto. O detetive se afastou da porta e assim tentou retirar do García o que a família Nevelly estava querendo, depois de algumas bebida ele já sabia quem. E aqui estava ele, espancando aquele lixo para que confessasse o que sabia. O detetive já estava cansado da ladainha daquele cara, sempre há um louco querendo se justificar.
O rapaz olhou para o detetive e com um sorrisinho de quem não estava mais se importando com o que fosse acontecer e já não aguentava mais ser espancado, então começou a falar:
- Cara, eu realmente queria comer aquela vadiazinha. Sim estou falando da filha mais nova da Sra Nevelly, todo dia vinha toda assanhada pra cima de mim enquanto eu estava terminando meu serviço, ficava com aquele sorrisinho zombeteiro. Eu já estava acabando de juntar aqueles entulhos, não sei por que fiz isto, então resolvi dar uma espiada na casa. Não tinha visto nenhum movimento, achei que só a putinha estava lá, resolvi ir pegar meu pagamento e talvez até comer a desgraçada. Entrei pela cozinha e fui pra sala, no corredor tinha uma porta meio aberta com uma escada descendo para o porão, o lugar parecia um labirinto, ele tinha construído umas passagens abaixo da casa, escutei um barulho e resolvi dar uma olhadinha. Sabe, eu não ia fazer nada com ela, só estava curioso, quando eu desci, a vi de costas. Ela não tinha me escutado descer, eu só vi um matadouro no porão. Achei que eles abatiam os porcos ou algo parecido ali e fiquei meio confuso até ver que não eram porcos, mas na verdade eram corpos de crianças. Daí eu tentei sair o mais rápido possível daquele lugar e não deixar ninguém me ver, mas acho que foi tarde. A desgraçada da empregada me viu sair da casa correndo. Sabia que eles não me deixariam vivo, depois que soube da morte da Lucia, a empregada, então estava tentando arrumar um jeito de sair da cidade. Ate você vir me arrastar para esta merda de lugar, achei que você iria me matar, mas estou vendo que você não sabe de nada do que estas pessoas são capazes.
Paloma Kezia
