Continua...
[Sétima parte]
O Detetive mal podia acreditar no relato do rapaz, mas não tinha escolha senão averiguar se o que ele havia dito era verdade. Ele andou pela sala de um lado para o outro enquanto pensava no que deveria fazer. Então decidiu invadir a casa dos Nevelly, só precisava encontrar uma maneira de passar desapercebido pelo sistema de segurança e não ser reconhecido. Além de tudo sabia que não poderia deixar o rapaz por ali, precisava encontrar uma forma de escondê- lo até descobrir a verdade.
-
Meu ônibus chegou então ao local onde eu deveria descer, já era noite e as luzes alaranjadas dos postes iluminavam a rua. O bairro onde eu morava era composto de prédios enfileirados, alguns novos, outros nem tanto. O prédio em que eu morava era de longe o mais antigo, as paredes sujas com a pintura descascando e aquela velha e enferrujada escada de emergência externa conferiam-no um certo charme. Um dos motivos que eu mais gostava de morar ali eram as lojas de conveniência, sempre que me batia uma fome durante a noite eu conseguia descer e ainda encontrar algo para comprar já que havia uma ou outra que funcionavam 24 horas. Aproveitei então para atravessar a rua antes de ir para casa e comprar alguns salgadinhos e refrigerantes para comer enquanto assistia alguma série na TV.
Quando entrei no mercado algumas pessoas ainda faziam fila para pagar as compras no caixa, tentei ser breve e fui logo no freezer pegar meu refrigerante favorito, em seguida corri para o corredor das batatas para pegar um belo pacote. Foi então que trombei em alguém, afastei um pouco para olhar e pedir desculpas e vi que na minha frente estava parado um homem moreno, alto e forte. Talvez ele não fosse assim tão alto, devia beirar os um e oitenta, mas perto dos meus um e cinquenta e cinco se tornava bem mais alto. Ele tinha um físico forte, mas com uma barriguinha que começava a saltar, parecia um soldado que havia voltado da guerra a pouco tempo e andava comendo besteiras, seu rosto ostentava uma expressão dura e seus olhos pareciam ter perdido o brilho, como se já tivesse visto muita ruindade. Eu fiquei parada enquanto ele olhava para dentro dos meus olhos e sorria educadamente enquanto se desculpava, então ele se abaixou para pegar a lata que eu havia deixado cair quando nos trombamos.
- Me desculpa, eu pego outro pra você –Ele foi então até o Freezer, pegou outra lata e me entregou – Eu estava distraído e acabei nem te vendo, foi mal.
- Ah, sem problemas, também estava distraída. Hum.... Deixa eu ir, Obrigada – Fiquei surpresa com a gentileza dele que não contrastava com sua expressão rígida, fui até a prateleira e peguei o pacote de batata que eu tanto queria e então caminhei até o caixa.
- Aqui – Alguém me chamou a atenção. -Você é a menina que mora no 89 do prédio velho, né? - O homem de antes estava atrás de mim e colocou a mão em meu ombro, eu o olhei e então falei:
- Sim, eu moro lá.
- Bem que eu pensei que já tinha te visto, você mal sai de casa, eu moro no 79, no apartamento embaixo do seu. – Eu apenas balanço a cabeça e concordo – Ah sim.
Logo chegou minha vez na fila e me dirigi ao caixa para pagar minhas compras, o balconista já me conhecia pelas muitas vezes em que eu havia ido lá para comprar algo, eu o agradeci educadamente e então me virei de forma mais ríspida para o soldado e dei um tchau. Sai logo dali, atravessei a rua e subi as escadarias do prédio até o meu apartamento, enquanto procurava pela chave da porta pude ouvir o soldado chegando no andar de baixo. Assim que consegui abrir a porta fui direto para a cozinha guardar as compras, em seguida para o quarto, tirei logo minha blusa e o par de tênis e me joguei na cama. Deitada ali comecei a pensar na forma como aquele soldado havia me confundido. Seu jeito de agir não condizia muito bem com seu olhar e sua expressão, ele dava a impressão de ser alguém bem fechado e sério, não aquela pessoa simpática e extrovertida. Comecei a achar estranho nunca ter visto ele, provavelmente se tivéssemos nos cruzado antes ele estaria em meus devaneios, eu estava ficando muito curiosa em relação a esse soldado misterioso, mas pensaria nisso depois, precisava terminar minha história.
O detetive, por fim, decidiu levar o rapaz até a casa de campo de um falecido amigo, cuja agora pertencia a seus filhos que pouco frequentavam a casa. Havia visitado tantas vezes aquela casa com seu amigo que sabia da existência de uma adega subterrânea abaixo do celeiro. A porta dessa adega era trancada apenas por fora, diziam que os antigos donos da casa deveriam usar o lugar para manter prisioneiros, talvez fosse então uma ótima prisão temporária.
O detetive então dirigiu até a casa e estacionou em frente ao celeiro, saiu do veículo e se dirigiu até o porta-malas, onde havia deixado o rapaz amarrado; ele o puxou por todo o trajeto até chegar a pesada porta de ferro da adega, onde apontou a arma para a cabeça do rapaz enquanto abria a porta com a outra mão, mandando-o entrar e dizendo:
O detetive então dirigiu até a casa e estacionou em frente ao celeiro, saiu do veículo e se dirigiu até o porta-malas, onde havia deixado o rapaz amarrado; ele o puxou por todo o trajeto até chegar a pesada porta de ferro da adega, onde apontou a arma para a cabeça do rapaz enquanto abria a porta com a outra mão, mandando-o entrar e dizendo:
- Você estará seguro aqui até eu resolver esse problema, vou arrumar algo pra você comer e um saco de dormir por enquanto.
O detetive tranca a porta e se dirige até a casa para encontra algo que o rapaz pudesse comer, mas toda a comida de lá já havia estragado faz tempo, felizmente ainda havia um saco de dormir de camping no meio de toda aquela bagunça da garagem. Depois disso rapidamente ele pegou o carro e foi até uma venda próxima do local, voltando com alguns mantimentos que ele julgou necessários para que o rapaz pudesse sobreviver ali.
Quando voltou à adega, se deparou ao abrir a porta com o rapaz encolhido no canto, apenas encarando-o em silêncio, então jogou o saco de dormir no chão e todas as coisas sobre ele, a comida e um galão de água. Enquanto fechava a porta o detetive poder ver o rapaz se lançar sobre a comida, então dirigiu-se até a casa, precisava pensar.
Após lavar o rosto e passar um bom tempo sentado refletindo, ele resolve ir então até a casa dos Nevelly sondar o entorno buscando alguma forma de entrar na casa. Chegando ao local ele percebe uma grande concentração de carros estacionados e de pessoas se movimentando, ao olhar pela janela fica claro que os Nevelly estavam dando uma festa no salão de festas da casa e o detetive percebe então uma excelente oportunidade para adentrar o local.
Ele não sabia como, mas talvez conseguiria entrar sem ser notado. Percebeu ao olhar para sua roupa que ela estava com algumas manchas de sangue, mas por sorte ele tinha outra camisa branca no banco de trás do carro. Então trocou a camisa, colocou o terno por cima e deu uma arrumada no cabelo enquanto se olhava pelo retrovisor, desceu do carro e se dirigiu até a entrada. Logo ele avistou um grupo de pessoas passando pelo portão e percebeu que nenhuma delas apresentava convite, havia apenas um segurança observando a movimentação.
Ao avistar uma moça de vestido verde que aparentava estar entrando sozinha se aproximou dela de forma cavalheira.
- Nossa, você está maravilhosa. – Aproveitando-se então para entrar junto com ela, pegando no cotovelo e dando seu braço como apoio para ajudá-la a subir as escadas. – Eu acho que já te vi na catedral de São marques. – Ela aceita a ajuda parecendo ficar aliviada de não estar chegando sozinha na festa e sorri para ele.
– Costumo ir muito nas missas que acontece lá, mas nunca te vi.
- Gosto de ficar sempre atrás, mas afastado pra ter mais privacidade nas minhas orações, mas sua beleza me atraiu a atenção – Ele sorri e fica aliviado por ela estar empolgada com sua companhia, assim conseguiu entrar sem chamar atenção.
Ao olhar ao redor ele percebe alguns seguranças rodeando a casa e o jardim, mas nota também uma janela aberta escondida na parte lateral pela qual ele poderia furtivamente entrar sem ser notado. Ele olha ao redor para ver se estava sendo observado, mas os seguranças estavam andando em outras direções e vigiando a entrada, no local só estavam presentes ele, a mulher de verde e algumas pessoas adiante. O detetive então olha para os pés e repentinamente se agacha, desamarrando o próprio cadarço, a mulher o olha tentando entender a situação mas ele trata de explicar – Vou amarrar meus cadarços, pode ir andando que logo alcanço a senhorita. – Ela acena e segue andando, então o detetive confere mais uma vez pra ver se não havia nenhum segurança o observando enquanto amarrava vagarosamente seu sapato e então se levanta, ninguém o observava, então ele cuidadosamente corre para o canto escondido na lateral da casa e salta o mais rápido possível através da janela.
Seu coração batia rápido enquanto se questionava se havia sido visto ou ouvido, mas o detetive não tinha tempo de se certificar disso, ele correu pelos cantos, se escondendo e tentando ouvir se havia alguém na casa, mas aparentemente não havia ninguém. Ele então chega até a porta que o rapaz havia descrevido e percebe que ela está trancada. Havia um molho de chaves pendurado acima de um aparador que estava próximo, mas nenhuma delas serviu. Foi então que ele começou a suar frio, o medo de ser pego fez com que seu coração disparasse e a adrenalina aumentasse, ele não conseguia abrir a porta, resolveu então ir até a cozinha na esperança de conseguir alguma coisa para abrir a porta, abriu algumas portas, revirou algumas gavetas, até que debaixo da pia encontrou um armário com algumas ferramentas básicas, dentre elas uma chave de fenda, que ele julgou ser sua melhor opção no momento.
Apesar da dificuldade em manusear a ferramenta para se abrir aporta, com um pouco de esforço ele finalmente conseguiu. Ao se abrir, ele se deparou com uma escada bem escura que descia até um local profundo, por onde ele desceu cuidadosamente se escorando nas laterais. Como o rapaz havia lhe contado, haviam vários corredores no local, ele permaneceu seguindo o da direita e ao passar pela primeira porta que encontrara ele sentiu um forte odor de sangue. O detetive começou a ficar ansioso e enjoado, o corredor escuro e úmido e aquele forte odor faziam calafrios percorrerem seu corpo, mas após um grande momento de hesitação ele abriu a porta. A sala estava escura, ele tateou na lateral da porta em busca do interruptor e então ascendeu a luz. Quando seus olhos se acostumaram com a claridade ele pode olhar com clareza e se deparou com uma criança morta, seu corpo pendurado de cabeça para baixo. Ele nunca havia visto nada tão assustador e nojento como aquilo, seu corpo logo se encurvou para o lado e colocou pra fora tudo que estava em seu estômago naquele vômito.
Paloma Kezia

Nenhum comentário:
Postar um comentário